A inarrável arte de se fazer rabiscos numa parede sem se ser apanhado por ninguém ou como viver numa cidade povoada de ninjas
Se há coisa que é mais antiga que o próprio homem é a prostituição. Ainda não era o homem Homem e já andavam por aí a saltitar umas quantas neerdenthais mais frescas que gostavam de procriar e seduziam homens indefesos e cansados nas suas teias insidiosas. Nessa época isto era visto como estratégia legítima de espalhar a semente mas depois apareceu deus que veio trocar as voltas de todo o mundo e decretou que isso era uma cena exclusiva dos homens, tal como conduzir bem na estrada e ser-se bom no desporto, e de repente lançou sobre as pobres espevitadas uma fama tenebrosa, inventando-se de imediato e de uma só vez, numa explosão semântica incomparável, as palavras pega, meretriz, rameira, mulher-da-vida, cortesã e, claro está, prostitua. Só mais tarde é que estas senhoras decidiram levar desta vida ocupação e fundaram aquela que é universalmente reconhecida como a mais antiga profissão do mundo. Tudo isto apenas para dizer que logo a seguir à prostituição ter sido inventada, um tipo decidiu rabiscar na parede de uma caverna “a lucy é uma badalhoca” e inventou, ali no momento e sem mais demoras, aquela coisa de se escrever em paredes obscenidades e outras vulgaridades.
Deste momento fundador até há semana passada, quando o Rúben Ivan decidiu assumir o seu amor liricamente escrevendo na parede do mercado Dom Pedro V “vou dizer q te amo para estender o meu império i que que me oixam neste i no outro emisfério GS.M.D.ti, ass: Nâzul”, passaram-se milhões de anos e no entretanto foi fundada a arte e criado o graffiti mas tudo isso são coisas para estrangeiro ver, que o que interessa mesmo, mas mesmo mesmo, é aquela faísca inicial, a espontaneidade de se escrever numa parede alheia um pensamento descabido. Sem nunca se ser visto a fazê-lo, claro está, porque, no fundo, o mais importante de tudo é nunca se ser apanhado.
Lisboa está cheia destes pedaços de incoerência. Coimbra está repleta de declarações de amor. Portugal é um grande mural coberto de letras brancas escritas à pressa com uma lata de spray. Porém, jamais vi alguém a cometer tais inconfidências, ali, em flagrante, com a boca na botija. Isto faz-me pensar numa de duas hipóteses: ou eu ando distraído ou então temos entre mãos uma praga descontrolada de ninjas. A maneira como tudo é feito sem se ser deixado um rasto atira-me de forma definitiva para a segunda hipótese. Isso e eu ser uma referência no que toca à atenção. De qualquer forma, é coisa para me deixar meio amedrontado não fosse o PCP mestre na pintura de murais e de palavras de ordem variadas, o que é um sinal claro de que eles têm nas suas fileiras uns quantos japoneses conhecedores da artes ninjas, quiçá mesmo um bruce lee, o splinter ou o mestre miagy – quer dizer, se calhar o miagy não, que o gajo tem ares de ser um velho duro que lutou na guerra da Coreia e que detesta ir à baila com comunas de uma figa, a não ser quando vai-não-volta mete-se no barco e vai até ao Barreiro arranjar confusão com uns quantos tipos que ainda sonham com o advento de uma primavera vermelha – e que só os estão a guardar para o dia em que o Jerónimo vai subir à janela da câmara de Lisboa e decretar a instauração da República Popular de Portugal.
A verdade é que, no meio de tanta incongruência e mau português, vão surgindo, a tempo-a-tempo, frases verdadeiramente emblemáticas. Ou talvez não: afinal de contas, não nos cabe a nós a crítica, pois temos objectivos bem mais singelos – registar as palavras escritas numa qualquer parede num blog que ninguém lê e aguardar silenciosamente que sejam celebradas no espaço de dez anos ou mais por alguma corrente de pensadores de esquerda ainda mais obscura. Ou algo assim parecido, que nós não somos muito talentosos e somos incapazes de fazer mais do que cortar e colar e jamais iremos produzir algo de valioso, pelo que, pelo bem da nossa reputação, nos limitaremos a fazer pose descaradamente como se fossemos os tipos mais fixes do universo, enquanto publicamos, com a desleixada rotina possível e sem qualquer descrição, todas essas que coisas palermas que outros decidiram rabiscar. Isto, pelo menos, até ao momento em que os ninja comunistas conquistem o poder e pintem por cima da declaração do Rúben uma qualquer palavra de ordem eloquentemente proferida por Karl Marx.








