February 14, 2012
A inarrável arte de se fazer rabiscos numa parede sem se ser apanhado por ninguém ou como viver numa cidade povoada de ninjas
Se há coisa que é mais antiga que o próprio homem é a prostituição. Ainda não era o homem Homem e já andavam por aí a saltitar umas quantas neerdenthais mais frescas que gostavam de procriar e seduziam homens indefesos e cansados nas suas teias insidiosas. Nessa época isto era visto como estratégia legítima de espalhar a semente mas depois apareceu deus que veio trocar as voltas de todo o mundo e decretou que isso era uma cena exclusiva dos homens, tal como conduzir bem na estrada e ser-se bom no desporto, e de repente lançou sobre as pobres espevitadas uma fama tenebrosa, inventando-se de imediato e de uma só vez, numa explosão semântica incomparável, as palavras pega, meretriz, rameira, mulher-da-vida, cortesã e, claro está, prostitua. Só mais tarde é que estas senhoras decidiram levar desta vida ocupação e fundaram aquela que é universalmente reconhecida como a mais antiga profissão do mundo. Tudo isto apenas para dizer que logo a seguir à prostituição ter sido inventada, um tipo decidiu rabiscar na parede de uma caverna “a lucy é uma badalhoca” e inventou, ali no momento e sem mais demoras, aquela coisa de se escrever em paredes obscenidades e outras vulgaridades.
Deste momento fundador até há semana passada, quando o Rúben Ivan decidiu assumir o seu amor liricamente escrevendo na parede do mercado Dom Pedro V “vou dizer q te amo para estender o meu império i que que me oixam neste i no outro emisfério GS.M.D.ti, ass: Nâzul”, passaram-se milhões de anos e no entretanto foi fundada a arte e criado o graffiti mas tudo isso são coisas para estrangeiro ver, que o que interessa mesmo, mas mesmo mesmo, é aquela faísca inicial, a espontaneidade de se escrever numa parede alheia um pensamento descabido. Sem nunca se ser visto a fazê-lo, claro está, porque, no fundo, o mais importante de tudo é nunca se ser apanhado.
Lisboa está cheia destes pedaços de incoerência. Coimbra está repleta de declarações de amor. Portugal é um grande mural coberto de letras brancas escritas à pressa com uma lata de spray. Porém, jamais vi alguém a cometer tais inconfidências, ali, em flagrante, com a boca na botija. Isto faz-me pensar numa de duas hipóteses: ou eu ando distraído ou então temos entre mãos uma praga descontrolada de ninjas. A maneira como tudo é feito sem se ser deixado um rasto atira-me de forma definitiva para a segunda hipótese. Isso e eu ser uma referência no que toca à atenção. De qualquer forma, é coisa para me deixar meio amedrontado não fosse o PCP mestre na pintura de murais e de palavras de ordem variadas, o que é um sinal claro de que eles têm nas suas fileiras uns quantos japoneses conhecedores da artes ninjas, quiçá mesmo um bruce lee, o splinter ou o mestre miagy – quer dizer, se calhar o miagy não, que o gajo tem ares de ser um velho duro que lutou na guerra da Coreia e que detesta ir à baila com comunas de uma figa, a não ser quando vai-não-volta mete-se no barco e vai até ao Barreiro arranjar confusão com uns quantos tipos que ainda sonham com o advento de uma primavera vermelha – e que só os estão a guardar para o dia em que o Jerónimo vai subir à janela da câmara de Lisboa e decretar a instauração da República Popular de Portugal.
A verdade é que, no meio de tanta incongruência e mau português, vão surgindo, a tempo-a-tempo, frases verdadeiramente emblemáticas. Ou talvez não: afinal de contas, não nos cabe a nós a crítica, pois temos objectivos bem mais singelos – registar as palavras escritas numa qualquer parede num blog que ninguém lê e aguardar silenciosamente que sejam celebradas no espaço de dez anos ou mais por alguma corrente de pensadores de esquerda ainda mais obscura. Ou algo assim parecido, que nós não somos muito talentosos e somos incapazes de fazer mais do que cortar e colar e jamais iremos produzir algo de valioso, pelo que, pelo bem da nossa reputação, nos limitaremos a fazer pose descaradamente como se fossemos os tipos mais fixes do universo, enquanto publicamos, com a desleixada rotina possível e sem qualquer descrição, todas essas que coisas palermas que outros decidiram rabiscar. Isto, pelo menos, até ao momento em que os ninja comunistas conquistem o poder e pintem por cima da declaração do Rúben uma qualquer palavra de ordem eloquentemente proferida por Karl Marx. 

A inarrável arte de se fazer rabiscos numa parede sem se ser apanhado por ninguém ou como viver numa cidade povoada de ninjas

Se há coisa que é mais antiga que o próprio homem é a prostituição. Ainda não era o homem Homem e já andavam por aí a saltitar umas quantas neerdenthais mais frescas que gostavam de procriar e seduziam homens indefesos e cansados nas suas teias insidiosas. Nessa época isto era visto como estratégia legítima de espalhar a semente mas depois apareceu deus que veio trocar as voltas de todo o mundo e decretou que isso era uma cena exclusiva dos homens, tal como conduzir bem na estrada e ser-se bom no desporto, e de repente lançou sobre as pobres espevitadas uma fama tenebrosa, inventando-se de imediato e de uma só vez, numa explosão semântica incomparável, as palavras pega, meretriz, rameira, mulher-da-vida, cortesã e, claro está, prostitua. Só mais tarde é que estas senhoras decidiram levar desta vida ocupação e fundaram aquela que é universalmente reconhecida como a mais antiga profissão do mundo. Tudo isto apenas para dizer que logo a seguir à prostituição ter sido inventada, um tipo decidiu rabiscar na parede de uma caverna “a lucy é uma badalhoca” e inventou, ali no momento e sem mais demoras, aquela coisa de se escrever em paredes obscenidades e outras vulgaridades.

Deste momento fundador até há semana passada, quando o Rúben Ivan decidiu assumir o seu amor liricamente escrevendo na parede do mercado Dom Pedro V “vou dizer q te amo para estender o meu império i que que me oixam neste i no outro emisfério GS.M.D.ti, ass: Nâzul”, passaram-se milhões de anos e no entretanto foi fundada a arte e criado o graffiti mas tudo isso são coisas para estrangeiro ver, que o que interessa mesmo, mas mesmo mesmo, é aquela faísca inicial, a espontaneidade de se escrever numa parede alheia um pensamento descabido. Sem nunca se ser visto a fazê-lo, claro está, porque, no fundo, o mais importante de tudo é nunca se ser apanhado.

Lisboa está cheia destes pedaços de incoerência. Coimbra está repleta de declarações de amor. Portugal é um grande mural coberto de letras brancas escritas à pressa com uma lata de spray. Porém, jamais vi alguém a cometer tais inconfidências, ali, em flagrante, com a boca na botija. Isto faz-me pensar numa de duas hipóteses: ou eu ando distraído ou então temos entre mãos uma praga descontrolada de ninjas. A maneira como tudo é feito sem se ser deixado um rasto atira-me de forma definitiva para a segunda hipótese. Isso e eu ser uma referência no que toca à atenção. De qualquer forma, é coisa para me deixar meio amedrontado não fosse o PCP mestre na pintura de murais e de palavras de ordem variadas, o que é um sinal claro de que eles têm nas suas fileiras uns quantos japoneses conhecedores da artes ninjas, quiçá mesmo um bruce lee, o splinter ou o mestre miagy – quer dizer, se calhar o miagy não, que o gajo tem ares de ser um velho duro que lutou na guerra da Coreia e que detesta ir à baila com comunas de uma figa, a não ser quando vai-não-volta mete-se no barco e vai até ao Barreiro arranjar confusão com uns quantos tipos que ainda sonham com o advento de uma primavera vermelha – e que só os estão a guardar para o dia em que o Jerónimo vai subir à janela da câmara de Lisboa e decretar a instauração da República Popular de Portugal.

A verdade é que, no meio de tanta incongruência e mau português, vão surgindo, a tempo-a-tempo, frases verdadeiramente emblemáticas. Ou talvez não: afinal de contas, não nos cabe a nós a crítica, pois temos objectivos bem mais singelos – registar as palavras escritas numa qualquer parede num blog que ninguém lê e aguardar silenciosamente que sejam celebradas no espaço de dez anos ou mais por alguma corrente de pensadores de esquerda ainda mais obscura. Ou algo assim parecido, que nós não somos muito talentosos e somos incapazes de fazer mais do que cortar e colar e jamais iremos produzir algo de valioso, pelo que, pelo bem da nossa reputação, nos limitaremos a fazer pose descaradamente como se fossemos os tipos mais fixes do universo, enquanto publicamos, com a desleixada rotina possível e sem qualquer descrição, todas essas que coisas palermas que outros decidiram rabiscar. Isto, pelo menos, até ao momento em que os ninja comunistas conquistem o poder e pintem por cima da declaração do Rúben uma qualquer palavra de ordem eloquentemente proferida por Karl Marx. 

March 29, 2011

E houve um dia em que, sem mais explicações, ele deixou de proferir qualquer palavra sobre o assunto.

March 21, 2011
(…) #2

Desde o início dos tempos, houve um pai que dizia ao filho que as coisas não estavam bem e que não valia a pena lutar para que se tornassem melhores. É a vida, não há muito que mudar.

Isto terão dito aos escravos até ao dia em que a escravatura acabou. E aos judeus até ao dia em que a Inquisição fechou. E às mulheres que queriam mais liberdade, mais independência, maior participação na vida pública até ao dia em que lhes foi permitido votar.

Na revolução industrial, o agricultor ficou sem trabalho e justamente queixou-se do seu destino. Foi para a cidade e sujeitou-se ao emprego que lhe deram, às normas que lhe impuseram, ao horário que exigiram que cumprisse. E ele terá dito “é a vida, não há muito que mudar”. Até ao dia em que os trabalhadores se organizaram, manifestaram-se, entraram em greve, exigiram dignidade. 

Com a globalização, as fábricas deslocalizaram-se, novos países exigiram justamente a quota-parte da riqueza do mundo. E houve alguém que voltou a dizer “habituem-se, este é o mundo moderno. Acomodem-se com o que têm e trabalhem pelo que não têm” e alguém que ouviu e cabisbaixo terá afirmado “é a vida, não há muito que mudar”.

Aos povos das colónias disseram o mesmo. Aos que viviam sob a ditadura comunista disseram o mesmo. Aos negros na América disseram o mesmo. E sempre se enganaram e sempre, inesperadamente, a Liberdade conseguiu vencer graças ao esforço daqueles que não se conformaram.

Na história da Humanidade, sempre houve quem se sujeitasse àquilo que lhe impuseram como o único destino possível. Mas não foram, contudo, estas as pessoas que lutaram e sonharam com algo de melhor para si e para os seus descendentes e, desta forma, contribuíram para o progresso de toda a Humanidade. Actualmente, lendo, tranquilamente sentados na poltrona da nossa próspera sala, as notícias do jornal, ora animadoras, ora prometedoras de um apocalipse próximo, podemos concluir uma de duas opções: 1. Que o progresso de centenas de anos terminou aqui, agora, e que daqui adiante será sempre a piorar; 2. Que o momento actual é apenas uma barreira no caminho e que o progresso vigará, como sempre vigou, com avanços e recuos, nos últimos séculos da história da Europa e do Ocidente. Eu, como verdadeiro benfiquista, sou eternamente optimista, tendencioso e sonhador e, por isso, só posso aceitar que daqui a cinquenta anos ou mais estaremos todos a comemorar a maneira brilhante como conseguimos ultrapassar as adversidades do início do século (e a comemorar no Marquês mais um título do Benfica campeão). É uma opinião que alguns poderão chamar de mal fundamentada e eu não lhes direi o contrário; ainda assim é a única que eu consigo ter. 

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March 16, 2011
O Que Faz Falta (é animar a malta)

Não há nada que a malta mais goste do que sair à noite. Beber uns copos com amigos, conversar sobre inutilidades e sobre os mistérios da vida à volta de umas minis, conhecer uns tipos porreiros que gostam do Benfica ou dos Doors e umas miúdas de sonho que só se querem divertir, ter coragem para fazer tudo – entrar em aventuras impossíveis que, oh puto, nem te passa o que me aconteceu ontem, ou dizer finalmente aquilo se está para dizer há séculos àquela pessoa – dançar até cair ou até as luzes se ligarem subitamente e a música ser substituída por uma balada calma que nos diz que temos de nos por dali para fora o mais rápido possível. Claro que a vida não é unicamente ir até à disco e fazer o move clássico de estar encostado ao balcão com o copozito na mão e a abanar a cabeça ao som de uns Black Eyed Peas. Um tipo tem de fazer coisas no dia-a-dia, nem que seja para ter cenas para dizer às miúdas que só se querem divertir e não parecer um idiota que a única coisa que faz é embubadar-se e ouvir Cindy Lauper. Dá jeito e fica bem dizer que se anda num curso qualquer e que se faz isto e aquilo e viu-se este filme e aquele, a não ser, claro, que se tenha olhos azuis que aí, ò injustiça da vida, eles fazem o trabalho todo sozinhos. Isto, claro, coloca todo o mundo que não os tem numa posição de desigualdade incalculável, o que me leva a colocar tudo em perspectiva e achar que essas histórias do comunismo só falharam porque havia demasiada gente com olhos azuis que ficou com as melhores tenistas russas e que o resto do povo ficou a brincar com matrioskas; a corrida ao nuclear e o desmoronamento económico, ao contrário do que se diz, só ajudaram à festa.

(E eu estou sempre práqui a falar de gaijas mas, verdadeiramente, com este nível de bazófia é tempo para se desconfiar que eu não me safo lá muito bem e talvez isto não passe de frustração sexual ou alguma coisa que um dia vá ficar entre mim e o meu terapeuta)

Esta coisa da noite também tem inconvenientes. De vez em quando um tipo fica um bocado mais racista e troça dos monhés que vendem flores (“a sério rosas outras vez? já disse que não, não quero… cinquenta centimos? já disse que não! uns óculos que têm lúzinhas? humm, isso já me parece tentador…”) a torto e a direito e, geralmente, um bocadinho mais delinquente e pode lhe dar numa de jogar futebol com bolas improvisadas como se a primária nunca tivesse terminado, entrar em casas alheias, partir coisas na rua, subir a telhados, ser-se galifão com um grupo de arruaceiros como se soubesse kung fu como o Bruce lee, roubar cenas, sei lá, a lista de possíveis acções enquanto sob o efeito de bebidas fermentadas é tão vasto que mais vale ficar por aqui. Isso ou acontece a toda a gente ou só a mim e então posso concluir que eu, na realidade, sou um cretino de primeira linha e a educação que a minha mãezinha me deu foi puro desperdiço de tempo.

Evidentemente, em todos os grupos há um tipo que bebe comó caralho e vira finos em menos de um segundo e, por isso, é um campeão. Ele merece aquele cumprimento sincero e ser referenciado em conversas com pessoas que não o conhecem, quando vem à baila a questão de quem é que bebe mais e mais depressa, do género “Pois é, pá, tenho um amigo que é uma esponja e consegue virar uma garrafa de vinho de penálte. Ganhei.”, ficando assim a conversa arrumada e questão resolvida: de facto, quem bebe mais é a malta de Coimbra e o resto é tudo meninos (que não vão ter de certeza uma cirrose, mas isso é coisa para nos importarmos daqui a vinte anos ou mais, portanto para quê estarmo-nos a chatear hoje que está uma noite tão boa e já se comprou um garrafão de cinco litros de festão?).

Depois, um tipo tem sempre aquele desejo de um dia meter-se num filme burlesco, do género acordar numa cidade diferente, num quarto de hotel vandalizado e a cheirar a rock por todos os lados, com um Keith Richards a um canto a snifar as cinzas do pai ou uns revolucionários anarquistas a negociarem armas na sala ao lado. Claro que a mim já me aconteceu algo desse género, já tenho muitas histórias para contar e, no fundo, ando a perder o interesse por estas lides e espero poder pendurar a espada em cima da lareira brevemente, abandonar estas batalhas e poder-me dedicar a simplesmente ver televisão o dia todo e ligar para os programas de opinião pública para falar mal do Sócrates. Porque afinal tudo isto é de uma beleza impecável, mas não nos podemos esquecer que a vida não é só álcool: é também miúdas giras.

March 11, 2011
Pensamentos de um Coimbrinha que foi estudar para Lisboa e até tem saudades de casa (apesar de gostar de falar mal dela)

Nota prévia: eu gosto de coisas grandes. Não fosse isso e teria escrito um título muito mais curto, talvez algo como “Pensamentos sobre Coimbra”, em vez de enfiar para lá uma série de palavras com o único intuito de encher chouriços. É que esta coisa da grandiosidade garante de imediato que as pessoas tenham uma opinião sobre o que é feito em grande: que é grande. Ninguém quer saber se o edifício mais alto do mundo é bonito ou feio, se é feito de marfim ou de mármore ou do que quer que seja; é grande, ponto.

Antes de mais, preciso de dizer que, para mim, ir a Coimbra é sempre algo agridoce. Da última vez que aí fui, decidi, na véspera de Natal, fazer umas compras retardatárias, numa lógica muito de última hora, hábito que meio mundo apelida de bem português, mas que eu mais singelamente apelido simplesmente de humano, que esta coisa de preferir ficar no sofá a ver o Sozinho em Casa em vez de ir para o frio da rua fazer obrigações não há-de ser uma mania unicamente tuga, convencido de que ia dar de caras com filas do género distribuição de brindes da merda em festivais de Verão. Contudo, ao percorrer as ruas da Baixa, vi-me a perguntar: mas para onde foram as pessoas? Sim, isto é uma espécie de pergunta retórica, porque não, eu não sou assim tão ingénuo. Sei que se fosse até ao Fórum, certamente para passar na FNAC, que há-de ser a única loja que me faz ir a esse maravilhoso sítio onde a temperatura ronda uns tórridos 40º e todos os empregados têm cara de estarem a ponderar os prós e os contras dum suicídio e que ainda me permite assumir orgulhoso perante os meus amigos que estive lá para comprar uma colectânea de discos avant-garde e um livro do Nobel («qual?» «O deste ano, não sabes quem é? Pff, inculto?»), mesmo quando o que adquiri foi o Fifa 11, encontraria a multidão perdida que tinha esperado ver na Baixa. Não pretendo culpar os que vão ao Fórum, que eu cá não sou moralista, mas chatear-me com a cidade, que eu cá sou muito do contra, e dizer que isto acaba por ser a prova da esquizofrenia de Coimbra: por um lado diz-se referência turística, Cidade do Conhecimento e eterna aspirante a património da Humanidade, mas por outro vende o seu centro histórico pelo menor preço possível aos fantasmas que hoje a habitam. Eu sei que muita gente não reparou que o Hitler não era nem alto nem loiro e até tinha um cabelo e bigode horríveis, mas isto é uma contradição demasiado evidente para passar ao lado de meio mundo.

Sempre que volto à minha cidade dá-me para me pôr a recordar de cenas que já se passaram há tempo suficiente para eu me ter esquecido delas. Geralmente recuo até ao tempo em que era um puto e não tinha idade para ter juízo. Nessa época, via “os estudantes” ou como criaturas semi-míticas que viviam nuns quantos andares acima do meu, ou como terríveis prevaricadores da boa moral, que nada mais faziam senão barulho e coisas más. Nunca pensei que viria a crescer para me tornar um deles. Mas isso são outros tangos, eu apenas puxei esta questão das memórias para pegar n’”os estudantes”, pedaço sui generis do folclore da cidade e orgulho máximo de Coimbra. Toda a gente crê que este é um afecto recíproco, mas isso é apenas uma meia verdade. Coimbra ama “os estudantes”, mas estes apenas nutrem por ela uma paixão desregulada e nem querem saber cá de relações a longo prazo: a vida é curta e os cursos agora só têm três anos, depois disso logo se vê, talvez fiquemos com uma amizade carinhosa e nostalgia melosa dos tempos passados. Eles são um pouco como aquelas pessoas que vão a um restaurante fora de caminho: chegam, comem, gostam, vão para casa e recomendam aos amigos, mas raramente lá voltam. É que o tal restaurante tem nome, tem mística, tem um ambiente aconchegante e um dono catita que vai-não-vai oferece aos clientes um copito de aguardente caseira, mas também já teve melhores dias e nem serve nouvelle cuisine, apenas os pratos do costume feitos por uma cozinheira velhota que nunca abre a boca. Para além do mais abriram outros restaurantes assim tradicionais que estão mais à mão e de repente os habitués deixaram de aparecer, já nem se lembram quando é que beberam por lá aquele vinho belíssimo (foi há um mês? Há dois? Um ano?) e preferem ir ao Japonês

Quando vou a Coimbra, saio à noite. É inevitável. As quintas-feiras são demasiado tentadoras para permanecer em casa a procrastinar. Beber um fino no Tropical, passar pela Associação, subir até à Alta, Museu, Bigorna e tal: o percurso habitual, os encontros de sempre, os conhecidos e aqueles que acabaram de se o tornar, capas, batinas, trupes e gajos bêbedos, parar nas Amarelas para enganar a fome, beber mais um copo e ir para o convívio de Medicina que alguém disse estar com miúdas fortíssimas que, estranhamente, à chegada à festa, parecem dissipar-se no ar com a desculpa habitual “pois, isto agora está a morrer”, e uma consequente passagem pelo NL, NB, o que for, com direito, no final, à aparentemente impossível subida para Celas. Sim, assim escrito parece épico. Talvez o seja, eu sei lá. Acontece que sabe a pouco. Enfim, o que há depois disto, não só da noite, mas da própria existência universitária? Quando se está na universidade, pouco existe para além dela; quando se acaba o curso, nada há para nós nesta cidade. Realmente, no Verão, quando “os estudantes” estão bem longe daí, se me esforçar bem, juro que quase consigo ouvir uma música western de Ennio Morricone e dificilmente me espanto se vir a surgir numa esquina Clint Eastwood de chapéu à cowboy, poncho mexicano e com o aspecto de ser o gajo mais duro do Oeste (porque sim, por vezes o marasmo chega a este ponto e o calor ajuda às alucinações). A verdade é que, para o bem e para o mal, Coimbra é indissociável da sua vida académica, simultaneamente perdição e salvação, criadora da dinâmica da cidade, mas silenciadora de tudo o que lhe é paralelo.

No fundo, Coimbra está transformada no Sporting das cidades portuguesas: já não luta pelo título, mas ainda não se apercebeu disso e já se diz que foi ultrapassada por outras cidades como Braga (pois, adoro quando estas metáforas desportivas saem bem e me fazem parecer o House). Em debates sobre a nossa cidade, muitas vezes acaba-se por cair em extremismos, surgindo de um lado os detractores - que vêem defeitos em virtudes e acusam Coimbra de ser a capital da inutilidade, local onde há muitos jovens, muito talento e ninguém faz nada, ou seja, na minha imagem futebolística, os que nos vêem como algo como a Naval, ou melhor, o Belenenses - e do outro os fanáticos defensores, que transformam Coimbra no Éden e a Praça da República numa Time’s Square - mais uma vez na minha imagem futebolística, os que nos vêem como um Benfica-da-década-de-sessenta-mas-ainda-melhor. Ambos os grupos são cegos, afinal o Sporting ainda é o terceiro grande e juntar “ainda melhor” a Benfica dos anos sessenta é puro paradoxo. Felizmente, ao sair desta cidade, consegui colocar-me num terceiro grupo de pessoas que talvez tenham a posição mais sensata: os moderados, que apreciam a cidade pelas coisas boas que tem (e ainda são algumas), criticam-na por tudo o que tem de mau (outras tantas) e desprezam-na sempre que insiste em não melhorar em tudo aquilo que pode.

Por muito que custe admitir, e é-o bastante, num regresso de Lisboa, ao atravessar o Mondego ao fim da tarde enquanto se olha para a Universidade a dominar a encosta, Coimbra torna-se mais pequena a cada momento que passa. Acontece que, e agora recordando a nota prévia, que não só para ocupar espaço (nobre função, porém) e para dar um ar solene à coisa ela lá está, eu não posso gostar de coisas pequenas. Claro que Coimbra nunca poderá vir a ser uma grande capital, com sítios cheios de hipsters e com coisas giras para fazer todos os dias, mas também não tem necessariamente de se esforçar para desaparecer do mapa, vendo os seus jovens a partir de dia para dia, até ao ponto em que restem apenas algumas velhotas que custosamente relembram o tempo em que as escadas da Sé Velha se enchiam em dias de serenata. É que se o fizer arrisca-se a perder aquele que é para mim o seu mais valioso património: o meu amor por ela.              

March 10, 2011

Jack London: É estranho. Este Sakai apresenta-me desculpas, mas quer a minha pele. Agora, tenho de me bater neste duelo. Já não o posso evitar.

Rasputine: Vai-te embora na mesma!

Jack London: Palavras não são só palavras. Não é fácil. Que figura seria a minha? Eu escrevo romances de aventuras, por isso devo viver aventuras!

                                                                                                                                                                        Hugo Pratt, A Juventude de Corto Maltese

March 3, 2011
youmightfindyourself:

I’m probably the most popular rapper in the world, but I don’t make pop music. I make gangsta shit. I don’t cross over to pop—pop crosses over to me. “Gin and Juice” was some gangsta shit. I wrote that motherfucker off the motherfuckin’ gin and a bag of that indo, with a bunch of bitches around me. I wasn’t thinkin’ about no pop. I was makin’ shit for the ’hood, for motherfuckers to bounce to. And, yeah, it became popular. 

Confirma-se: o Snoop Dogg é o gajo mais gangsta que já cruzou a terra. 

youmightfindyourself:

I’m probably the most popular rapper in the world, but I don’t make pop music. I make gangsta shit. I don’t cross over to pop—pop crosses over to me. “Gin and Juice” was some gangsta shit. I wrote that motherfucker off the motherfuckin’ gin and a bag of that indo, with a bunch of bitches around me. I wasn’t thinkin’ about no pop. I was makin’ shit for the ’hood, for motherfuckers to bounce to. And, yeah, it became popular. 

Confirma-se: o Snoop Dogg é o gajo mais gangsta que já cruzou a terra. 

March 3, 2011

James Mothafucking Blake is in tha mothafucking house playing mothafucking sounds. 

March 3, 2011

Há uns tempos José Sócrates enviou embaixada de empresários portugueses à Líbia para procurar oportunidades de negócios. Hoje, não tem outra hipótese senão repudiar a violência movimentada por khadafi. É uma questão de decoro. Agora que a democracia está a nascer por lá, há que apoia-la. Antes, quando era coisa que não aparecia no telejornal, não era assunto que merecesse reflexão, não era coisa para ser lembrada à mesa de um qualquer jantar de gala em que se discutisse a movimentação de milhões de euros. Mesmo que se soubesse que a mão que se apertava enquanto se olhava para a câmara era a de um assumido ditador e terrorista perdoado, mais valia sorrir e prosseguir, desígnios maiores assim o exigiam.

Falo de Sócrates, mas podia falar de qualquer outro político europeu; digo khadafi, mas podia referir qualquer outro ditador de qualquer outro país. Talvez os sultões dos emiratos árabes unidos, novos amigos de longa data, que nos vão ajudar nestes tempos tão aflitivos. Na realidade, Falo de políticos, mas podia falar de qualquer pessoa. Mariah Carrey que fez um concerto para o ditador líbio, Black Eyed Peas que actuaram no fim de ano do Abramovich. Arquitectos que planeiam obras para autocracias. Até onde é que deve ir a consciência pessoal nestes assuntos? Porque no fundo, voluntariamente ou não, acabamos por apoiar regimes ditatoriais, quer seja atestando o depósito do carro com petróleo da Arábia Saudita ou comprando, bem, quase tudo o que se possa comprar vindo da China.

 A verdade é que esta é uma questão complexa, quase sempre com duas faces para a mesma resposta. Ao comprar chinês, árabe, tunisino, egípcio estamos a beneficiar o povo destes países com dinheiro nos seus bolsos e empregos que de outra forma não existiriam ou os seus dirigentes facínoras? A receber os líderes em conferências, estamos a ser diplomatas ou a aceitar os seus regimes? A abrir fábricas, estamos a estimular a economia local ou a explorar povos? No final, onde é que ficamos?

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March 1, 2011
I’ll Try Anything Once

O grande problema desta vida é não se poder fazer control-z.

11:40pm  |   URL: http://tmblr.co/ZyBM8y3L-5Xy
  
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